Moinho Zona Norte

O bem que a máscara faz

11 de maio de 2020 - 12H49

A artesã Fábia de Melo Lima, moradora da Zona Norte de Juiz de Fora, não conhece a agente comunitária de saúde da Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Bandeirantes, Ercimara Rios Pereira. Isso, porém, não é fator que impede a proximidade entre as duas mesmo em tempos de Covid-19. Afinal, ambas fazem parte de uma rede de assistência que une a ciência, a tecnologia, a solidariedade, os recursos financeiros e o conhecimento à prestação de serviço a quem, efetivamente, precisa usar e aprender a usar as máscaras de tecido, como prevenção à doença que impõe um modo totalmente diferente de vida em sociedade.Nos próximos dias, Ercimara e outros 429 agentes comunitários de saúde iniciarão a entrega das máscaras que estão sendo produzidas para doação, inicialmente a quem trabalha em serviços essenciais e aos que apresentam vulnerabilidades, como os idosos.


A artesã Fábia de Melo Lima.

A empresária Pollyanna Grossi foi uma das primeiras integrantes da rede de solidariedade que se formou para a produção das máscaras de tecido, envolvendo trabalho voluntário e remunerado de costureiras e artesãs, que serão doadas às unidades básicas de saúde. “Estamos priorizando as empresas de Juiz de Fora na compra dos insumos para incrementar a economia local”, conta Pollyanna. Só no grupo catalisado na Praça CEU, em Benfica, são 19 pessoas envolvidas. Algumas encontram nesta ação a oportunidade de melhorar a renda da família e podem ganhar cerca de R$ 200 por semana, uma vez que recebem R$ 0,50 para cada unidade produzida. Além de custear máscaras, a rede também garantiu a compra de oxímetros e termômetros para as UBS’s.

“A máscara de pano é um equipamento simples, mas não é simplório”, explica a professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora, Sandra Tibiriçá, que coordena o estágio dos acadêmicos do último período da formação médica nas 63 unidades básicas de saúde de Juiz de Fora. Para que a população possa fazer da máscara sua aliada não basta apenas ter acesso a ela. É preciso um trabalho de educação em saúde desenvolvido por aqueles que conhecem as comunidades, que conhecem as pessoas, que sabem em que condições elas vivem, se são ou não do grupo de risco para a Covid-19, por exemplo. É aí que os agentes comunitários de saúde se tornam profissionais estratégicos na disseminação da informação que pode salvar vidas, observa Sandra, que atua, como representante da UFJF, na capacitação e na estruturação da Atenção Primária à Saúde (APS) há 13 anos.

“A partir da integração entre a sociedade civil, a Prefeitura de Juiz de Fora e a universidade federal, essa última representada também por outros profissionais, como o pneumologista Júlio Abreu, o infectologista Guilherme Côrtes, e a endocrinologista Danielle Guedes, a cidade pode protagonizar um serviço público eficiente de combate à pandemia do coronavírus na atenção primária,que envolvea capacitação dos profissionais das UBS’s, a estruturação mínima dessas unidades com oxímetro (que mede o nível de oxigênio no sangue), termômetro e equipamentos de proteção individual (EPI’s), e a implantação de uma plataforma virtual de educação permanente para o aprendizado da doença que é nova e dinâmica”, afirma a especialista. Duas vezes por semana, Sandra e um grupo de médicos trocam experiênciascom os profissionais que estão na ponta do atendimento à população na Atenção Primária à Saúde.


A agente comunitária de saúde Ercimara Rios.

“Criamos uma rede com pessoas muito competentes em suas diversas áreas de atuação, dedicadas e solidárias. Espero que continuemos unidos após a pandemia, porque as necessidades continuarão sendo muitas”, acrescenta Pollyanna Grossi.

Aprender para ensinar a usar

Depois de capacitar os médicos das UBS’s, valendo-se, inclusive de notas técnicas do Ministério da Saúde, na última semana foi a vez de preparar os agentes comunitários de saúde, sobretudo, para o uso adequado das máscaras de pano e para orientação às comunidades. Como nem todos tinham acesso à internet, o treinamento foi presencial, observando as boas práticas, em dois grupos de 20 pessoas cada que se transformaram em multiplicadores em seus respectivos locais de trabalho. Assim, em menos de sete dias, cerca de 430 agentes foram treinados para educar as pessoas que receberão as máscaras gratuitamente. Estima-se a necessidade inicial de distribuição de 180 mil unidades nas áreas abrangidas pelas UBS’s.


A médica Sandra Tibiriçá.

Quem está na ponta do atendimento não se sente apenas agradecido, mas também acolhido e valorizado com as ações da rede. Médica do Programa Saúde da Família e supervisora da UBS do Bairro Bandeirantes, Delaine Carmina te reforça que os agentes comunitários de saúde são mesmo o elo com a comunidade e conseguem, por isso, estimular o uso da máscara, servindo inclusive de exemplo. Pelo vínculo, também estão mais aptos a monitorar os pacientes que apresentam sintomas nos protocolos de acompanhamento a cada 48 horas.

Mesmo sob um modelo de atenção diferente ao oferecido no bairro Bandeirantes, a gestão da Unidade Básica de Saúde de São Pedro está confiante no trabalho educativo que será associado à entrega das máscaras para a comunidade. Supervisora da unidade, a assistente social Rose Condé observa que a Covid-19 está deixando evidente a necessidade de investimentos contínuos no Sistema Único de Saúde, sobretudo na Atenção Primária que atua na prevenção de doenças e na promoção da saúde.

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